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Roma

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Gaius Julius Caesar II

Contexto sócio-político

A família de César, os Júlios, eram uma família nobre antiga. César tinha-se notabilizado naquelas áreas em que se esperava que um jovem nobre romano se destacasse: a lei, a política, a guerra e... as mulheres. Os seus casos amorosos - com frequência com mulheres de senadores e cavaleiros - eram muitos e, para o bem e para o mal, eram bastante comentados publicamente. Presume-se que terá conquistado Tertúlia, a mulher de Crasso, Múcia, a terceira mulher de Pompeu (o que levaria ao divórcio do casal quando o senador regressou das suas campanhas asiáticas). Segundo Adrian Goldsworthy, um século mais tarde tornar-se-ia motivo de orgulho afirmar que uma tetravó dormira com César. O feitio mulherengo de César valeu-lhe muitas inimizades.

César era olhado pelos seus pares da aristocracia conservadora como um populista ambicioso. Isto não era, de qualquer modo, anormal. Qualquer homem que se destaca, na altura como hoje, consegue apoios e... inimizades. Recolhe a admiração e com ela a inveja dos seus pares. A sua ostentação natural, a sua magnanimidade generosa, até a sua fama de sedutor de mulheres aristocratas casadas, tudo aumentava a sua perigosa atracção popular. Era extravagante no seu comportamento, gastando mais do que podia para descaradamente ganhar a simpatia das franjas mais pobres da população romana. As suas festas e entretenimentos públicos eram famosos. César inaugurou a fórmula "pão e circo" em larga escala em termos de acção política. Nisso, foi também um percurssor ao compreender o papel daquilo que hoje chamaríamos de marketing político. As antipatias e simpatias que granjeava eram extremas.

A juntar aos seus pecadilhos de conduta social (não podemos esquecer que o estatuto da mulher em Roma não era o mesmo e que, com toda a certeza os valores morais diferiam em boa medida dos valores cristãos) muitos acreditavam que César e Crasso haviam estado associados aos conspiradores da tentativa de golpe de Catilina em 63 a.C. Quando defendeu a não aplicação da pena de morte aos conspiradores em pleno Senado as suspeitas aumentaram. O problema é que César não possuía a influência e os "clientes" no Senado que Crasso possuía e a sua posição ficou bastante mais frágil e perigosa. Catão, o Jovem era um dos confessos inimigos de César. "A sua desconfiança relativamente a César era profunda e tinha muito mais a ver com a incompatibilidade de feitios do que com reais diferendos políticos. Durante o debate sobre a conspiração de Catilina, Catão percebeu que passavam a César uma mensagem e pediu que a mesma fosse lida em voz alta, obviamente esperando que contivesse algo de incriminador. César hesitou e, depois de pressionado, acabou por dar o bilhete a Catão, que ficou siderado ao verificar tratar-se, afinal, de uma apaixonada carta de amor da sua meia-irmã Servília (a mãe de Bruto, que haveria de liderar a conspiração contra César, em 44 a.C." (Goldsworthy, Adian; Generais Romanos - Os Homens que Construíram o Império Romano; A Esfera dos Livros; Tradução de Carlos Fabião; 1ª edição, 2007).

César era uma personagem muito interessante de Roma mesmo antes de se ter tornado o grande general que todos acabariam por conhecer. Por um lado, era um aristocrata tradicional romano de uma das famílias mais antigas e veneradas, mas também pouco poderosas se comparada com outras famílias aristocratas na altura de vida de César de Roma. Por outro lado, a sua família estava ligada a alguns dos elementos mais radicais da política romana. O próprio César teve de fazer carreira (cursus) como era esperado de qualquer romano de famílias aristocratas. Também era um homem razoavelmente pobre para a tarefa, o que queria dizer que não possuía os recursos necessários para o habitual percurso ascendente da magistratura romana. O facto de gastar acima dos seus recursos em nada ajudava à sua tarefa. Estes factores levaram a que César tivesse suscitado, desde sempre, sentimentos intensos, e com frequência contraditórios, em relação a si.

Como nos podemos aperceber através dos parágrafos anteriores, Júlio César não era muito popular entre a aristocracia conservadora de Roma. Acusado de se dar a exageros em proveito próprio, era considerado um político instável. Era um político popular que dependia da vontade do povo para conquistar poder e isso obrigava-o muitas vezes a decretar legislação benéfica para o povo romano mas bastante impopular junto do regime oligárquico que dominava a República. Para os conservadores, a agenda de Júlio César sempre se mostrou demasiado radical e inoportuna tendo em conta os interesses da classe dominante. O que acabou por convencer os aristocratas concorrentes políticos de César de que ele era um competidor perigoso, foi quando César foi eleito Pontifex Maximus de Roma graças a um grande suborno. Um dos deveres perante os romanos como Pontifex Maximus era o de ceder a sua casa para a celebração das festas da Bona Dea (a Boa Deusa), uma cerimónia a que só podiam assistir mulheres. Esta cerimónia teria sido manchada por Clódio, um senador caído em desgraça, quando este se mascarou de mulher para ter acesso à cerimónia. Alegou-se que já mantinha um caso com a mulher de César e, perante este novo e escandaloso episódio, César divorciou-se declarando demagogicamente que "a mulher de César tem que estar acima de qualquer suspeita".

Contudo, apesar de alguns senadores se sentirem ameaçados pela popularidade de César, este era politicamente vulnerável pois não tinha grandes riquezas nem a quantidade e qualidade de partidários que um general bem sucedido atrai, como por exemplo, Crasso e Pompeu, seus contemporâneos. Estes possuiam riqueza suficiente para manter os seus próprios exércitos, manter o apoio do Senado e comprar a lealdade do povo romano. Na prática, Crasso e Pompeu conseguiam, através da sua capacidade financeira, o controlo do Senado e do Povo Romano. Mas foi sempre César quem deteve a habilidade para conquistar o coração do Povo romano. E isso, na altura da sua vida, fazia uma grande diferença. E, felizmente para César, estes dois homens precisavam da sua ajuda como cônsul. Pompeu era sem a menor dúvida um brilhante general (imperator) mas sempre foi infeliz longe dos teatros de guerra pois era um político inábil. Daí à aliança política entre os três e à concretização do Triunvirato foi apenas um passo.

Entre 61 e 60 a.C., Pompeu estabelece uma aliança secreta com Crasso e César. Para firmar esta aliança política Pompeu casou com a filha de César. Curiosamente, apesar da enorme diferença de idades e do pretexto político do casamento Pompeu e Júlia teriam um casamento feliz, tanto quanto é possível saber. O Triunvirato assegurou o decreto de leis sobre o controlo das províncias. Quando César abdicou após um período de um ano como cônsul, foi-lhe dado o governo por cinco anos das províncias da Gália Transalpina, da Gália Cisalpina e da Ilíria. Estas províncias eram de interesse estratégico vital para Roma e, como tal, possuíam um grande exército. Foi este exército que César passou a comandar oferecendo uma excelente selecção de militares duros e bem treinados e oferecendo assim a César uma boa perspectiva de uma campanha gloriosa na Gália. Para César, um bom comando militar podia fazer a diferença entre a ruína política e a grandiosidade.

Durante o seu ano como cônsul acumulou inimigos, forçou as suas preferências através da legislação de formas, por vezes, muito pouco ortodoxas (nomeadamente formas violentas) e, de facto, tinha-se colocado numa posição em que ou estava por cima ou estava fora. Era vital para César, depois de ter sido cônsul em 59 a. C., conseguir um grandioso comando militar. Não tinha a reputação militar massiça que a maioria dos seus poderosos rivais de Roma, particularmente Pompeu, o Grande. Pompeu era chamado de "O Grande" devido às suas diversas vitórias militares. Pompeu e Crasso ajudaram César a obter este grande comando devido à aliança política que os três haviam formado que conhecemos como Terceiro Triunvirato. César, como cônsul, estava numa posição estratégica para beneficiar bastante Pompeu e Crasso. Fê-lo através de legislação que decretou e em troca Pompeu e Crasso ajudaram César a obter o comando (continua...)

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